Capítulo 8 – Domingo (24 de abril de 2016)
Eu gostava de fazer algumas perguntas estranhas quando era criança. E se uma pessoa respondia de forma muito engraçada ou só muito diferente do que eu imaginava, era um sinal de que mais pessoas precisavam responder à pergunta.
Assim, não era incomum saber que um colega de turma adorava
batata palha, que outra coleguinha não gostava do próprio cabelo, que um deles
tinha surrupiado o estoque de revistas da Playboy do irmão e que a maioria
tinha como dia favorito o sábado.
Tentei descobrir que preferência maluca era essa pelo
sábado, e qual não foi minha surpresa ao notar que o argumento (medíocre) nos
levava apenas a ''porque depois do sábado ainda tem outro dia do final de
semana''.
Mas, meu argumento de 9 anos bem vividos, à época,
mostrava-se muito mais razoável. Eu gostava do domingo, porque domingo era um
dia em que toda a família ficava junta.
Minha avó liderava nossas tardes com aventuras que, hoje, me
dariam um pouco de medo de um machucado ou de uma doença - ou, no auge da minha imaginação em pânico,
medo da morte - (definitivamente, e de forma lastimável, uma criança aventureira
virou uma medrosa com pudores).
Subindo em árvores, escalando montes de areia, destruindo
casas de marinbondos com fogo (aqui, como se nota, poderia residir o medo da
morte), explorando construções, construindo uma gangorra com alguns tijolos e um
pedaço grande de madeira (o que resultou num arremesso histórico de uma irmã
para o terreno baldio - sem quebrar nenhum osso, porque se tivesse quebrado,
até meus jovens 9 anos poderiam antecipar a condenação à morte que me
atingiria-), provocando corujas, atravessando o mato correndo e enfiando o pé
em um espinho de algo que parecia um cacto (aqui temos um exemplo de risco de
infecção, que poderia levar, é claro, à morte).
De jeito nenhum que o domingo perderia para o sábado. De
jeito nenhum que aprender a subir naquela árvore perderia para um dia que vivia
na expectativa de ter mais um dia. Esse argumento pró sábado era muito bobo,
ninguém nunca iria acreditar numa bobagem dessas.
Mas, quem diria, o tempo vai descendo da árvore, devagar,
como quem só quer conferir o que está no chão, depois ele sobe de novo,
promete.
Mentira dele. Não sobe.
Fica sentado perto da raiz, de braços cruzados, boceja e faz
cara de tédio, quanto mais cresce, mais mimado fica,com pressa, faz exigências,
e vai trazendo o medo de que naquela areia tenha uma micose, vai deixando um
rastro de receio que impede uma invasãozinha inocente à casa dos outros, é
errado, não é? Muito errado.
E se no mato morar uma cobra? Pode não ser venenosa, mas eu
vou perder a prova da próxima semana, e o professor não vai acreditar que isso
foi culpa da cobra, quem eu penso que sou, afinal, para colocar a culpa na
cobra? Eva?
O tempo não quer andar de bicicleta quando tiver uma folga,
ele quer correr para bater o ponto.
O ponto, aliás, parece ser inegociável agora. Não pode
dormir no ponto, não pode perder o ponto, tem que decorar aquela sigla HSHFLRN
que não faz sentido, mas garante o ponto da questão.
É, o sábado é um dia estratégico. É um bom dia. Faz o tempo
render. Eu gosto do sábado, me faz útil.
Mas eu gosto mesmo é do domingo.
Tirando a preguiça, a ameaça de uma segunda-feira pronta
para uma aposta de mau gosto, tirando o sentimento quase incapacitante de
tédio, tirando essas besteiras, eu gosto do domingo.
Porque, no domingo, dá vontade de subir na árvore e de rir
de coisa pouca. Dá vontade de dividir o tempo com aquelas pessoas com quem o
tempo merecesse ser dividido. Dá vontade de planejar uma invasão, uma escalada
e dá a impressão de que eu vou começar a semana dizendo ''danem-se, marinbondos''.
Eu gosto de gostar do domingo, parece aventureiro da minha
parte. E se não dá para ser aventureira, qual o ponto?
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