Capítulo 9 - Ao vencedor, as pitangas (13 de março de 2021)

Lá estávamos no exercício domingueiro mascarado, como exigem os nossos tempos. Vi um senhor perambulando entre algumas árvores e, sendo eu uma grandiosíssima curiosa confessa,fiquei olhando para tentar descobrir o que ele fazia.

 

Com surpresa, recebi a pergunta meio gritada pela distância, que vinha de lá pra cá: você gosta de pitanga?

 

Imediatamente parei a caminhada. Fosse qualquer outra fruta, eu teria conseguido acionar algum filtro social de resposta, mas era pitanga, a fruta que eu mais amo na vida (não a que eu acho mais saborosa, mas sim a que tem minha mais completa devoção).

 

Por duas razões simples: 1) você não consegue comer pitanga quando e onde quiser, não vende no super mercado e nem na feira, assim, não é você que escolhe a pitanga, é a pitanga que escolhe você; 2) minha vó e eu invadíamos algumas casas de vizinhos e surrupiávamos muitas pitangas, eu não sabia que aquilo era -em tese- errado e, na época, nem gostava muito da fruta em si, eu gostava da aventura de comer algo que eu mesma tinha colhido.

 Um dia, fomos pegas pelo caseiro da casa violada, Joel, e ele nos perguntou o que fazíamos (com vasilhas cheias de pitanga, esgueiradas pelo muro), eu - uma criança perigosamente sincera- avisei que estávamos pegando as frutas, minha avó, a mentora intelectual, disse que já estávamos saindo. Saímos mesmo (ali, desconfiei que talvez asssltar a casa dos outros não fosse exatamente permitido, quem diria?). Algumas horas depois, Joel foi até nossa casa com muitas pitangas (não uma, não duas, veja que eu não disse 'algumas', é que era uma ruma de pitanga).

 

Não deu tempo da minha mente conversar internamente e de lembrar da minha história com as pitangas, quando dei por mim, estava respondendo do meu local, aos berros: eu AMO pitanga.

 

O senhorzinho não se surpreendeu, ele só disse: esse pé tá cheio de pitanga, pode pegar.

 

Com muito esforço interpretativo CSI, notei que ele era funcionário do parque. Pensei em recusar por educação, no entanto, mais uma vez, quando vi, eu já estava colhendo as frutinhas.

 

"Tem umas mudas de pé de pitanga aqui, você quer uma?"

 

Habitante do capitalismo, perguntei quanto custava esse produto. Acho que quase fui ofensiva, porque ele me respondeu num tom de obviedade que elas não custavam nada, estavam na terra, era só pegar e levar.

 

Essa foto deixa claro que eu acabei sendo presenteada com muito mais que um pé de pitanga. Foi hortelã, sete dores, malva branca e sambacaitá, uma verdadeira farmácia.

 

No último domingo fui caminhar de novo, vi Seu Adilson de longe e o reconheci. Modéstia à parte, eu sou muito boa em lembrar do nome das pessoas, tão boa que, em muitos casos, as pessoas até estranham a recordação (viu, querida moça da fila da 2a via do RG, de 15 de outubro de 2015, que, logo no dia seguinte encontrei no estacionamento da UFS e cumprimentei pelo nome na maior alegria, como se já fôssemos migas, e que não me reconheceu e ainda me olhou com cara estranha).

 

Da pista de caminhada, gritei um "boa noite, seu Adilson", não parei de caminhar porque já estava esperando que ele respondesse um boa noite tímido, típico dos que não lembram. E não é que ele, além do cumprimento noturno emendou um: "tem mais pé de hortelã se você quiser". Parei subitamente, acho que o Google fit não entendeu nada.

 

Seu Adilson lembrou de mim, que gentileza. Avisei que queria sim mais mudinhas porque, infelizmente, meu hortelã não tinha vingado.

 

Sinto muita falta de conhecer novas pessoas, como seu Adilson, de ouvir o que elas contam sobre as coisas que mais amam na vida (no caso do meu novo amigo: plantas) e sobre como acabam contando a própria história entre uma frase e outra.

 

Mais uma vez, saí com um monte de pé de planta e, também, com um calorzinho no coração. Acho que não vou caminhar lá essa semana, meu fornecedor de plantas comentou que entraria de férias.Espero que tudo passe logo, espero a vacinação geral, quero poder dar um abraço em Seu Adilson.

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