UM LIVRO SOBRE A MINHA AVÓ (comece por aqui)
As aventuras de
Gadinha
Já tentei escrever livros de
ficção e livros que contavam minhas próprias percepções sobre a vida (eu sei,
pretensioso). Começava a escrever e parava logo depois, perdia o gás. Talvez me
faltasse disciplina ou, talvez, eu devesse mesmo estrear com um livro sobre
minha avó, faz sentido.
Nas páginas que seguem, reuni as
histórias que já contei e as inéditas, como uma forma clara de homenagem à
Gadinha, que encerrou a carreira artística esse ano.
Esse é, portanto, um livreto
fruto de observações curiosas sobre uma senhorinha aventureira. Mas não é só.
As observações foram feitas, ao
longo dos anos, por mim, e eu sempre fui neta de Gadinha. Então, minha vontade
de escrever também é movida por uma vontade de continuar vivendo cada uma das
aventuras da avó mais famosa do (meu) mundo.
Sou uma observadora, mas uma
observadora com saudades da avó que partiu.
Durante a maioria absoluta dos
domingos da minha vida, principalmente, da minha infância, eu ia para a casa
dos meus avós ou eles iam para nossa casa, de um jeito ou de outro, era o dia
de compartilhar esse contato.
Na despedida, eu tinha medo.
Medo de não ver meus avós de novo, medo que um acidente de carro nos separasse,
medo daquele momento de um tchauzinho banal se tornar, bruscamente, o último
tchau. Não gosto de momentos bruscos. Nunca gostei.
Então, eu sempre queria ser
aquela que dava o último abraço na minha avó, minhas irmãs, meus pais, poderiam
dar todos os abraços que quisessem, eu não queria exclusividade, mas o último
abraço da despedida tinha que ser o meu.
Um dia, com o coração
especialmente apertado, dei um passarinho emborrachado para minha avó, na
minhae cabeça de criança, o passarinho laranja simplório salvaria a todos.
Era um passarinho daqueles que
as crianças grudam na parede do banheiro. Minha avó guardou esse passarinho até
o fim, ao lado dos santos dela. Meu passarinho emborrachado laranja foi
beatificado, é o santinho do amor dos avós.
Hoje o passarinho está comigo.
Com a partida da minha avó, peguei o pobre santinho voador e tratei de
guardá-lo comigo. Desconfio seriamente que ninguém mais notaria que era aquele
pedaço de e.v.a o item mais valioso de toda a casa.
Agora, ele está com o ninho
imaginário na minha gaveta, como um item de museu, ao lado de fotos e do
Pinóquio que eu também tinha dado de presente para Dona Gadinha (minha avó
amava a história do Pinóquio, é por isso que estou me recusando a assistir ao
filme que acabou de ser lançado sobre o tema. Com minha vó aqui, a fábula era
linda e sensível. Sem minha avó, o Pinóquio é só um menino de madeira, sem
magia a ser despertada).
Como não poderia deixar de ser,
dedico esse livro a todas as vovós e a todos os vovôs do planeta, a todas as
netas e a todos os netos que escutam seus avós e que os vivem.
Acima de tudo, dedico (e aqui peço uma licencinha a vocês) à
memória da minha avó Gadinha, que fez e faz parte da minha vida, que me amou e
que foi amada por mim, que me contou aventuras e que viveu cenas épicas comigo,
que me deixou aqui nesse eterno fim de tarde de Domingo, mas que segue comigo,
com a benção de todos os passarinhos laranjas emborrachados que já existiram no
mundo. Obrigada, vó.

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