Capítulo 6 – Dia do aniversário de 80 anos da minha avó (eu não sabia ainda, mas nesse dia ela ficaria 100% chapada por ter errado remédios) – (19 de novembro de 2016)
Hoje minha avó faz 80 anos, ela não é uma senhorinha pacata e comum, meus caros (os relatos aventureiros feitos nesta rede social já anunciaram que não se trata *mesmo* de uma senhorinha pacata e comum).
Alguém escreveu no verso de uma foto antiga, dada de
presente para essa senhorinha aventureira, que ela conservava sua criança
interior como ninguém. Uma legenda muito certa.
Eu espero que seja uma característica familiar, para que eu
possa conservar a minha criança também. Isso não tem nada a ver com deixar de
assumir responsabilidades. Não. Criança é coisa séria e esperta, só que é uma
coisa séria e esperta muito mais colorida.
Minha avó tem dentro de si uma criança muito traquina (a
minha criança tem um pouco de medo disso).
Foi com ela que eu aprendi a subir em uma árvore (não a
descer, o que me rendeu um inconveniente episódio numa mangueira - o resgate
ocorreu bem), que eu surrupiei pitangas de um vizinho (depois o moço que
cuidava do jardim foi até a minha casa com um bocado de pitangas para a gente,
eu queria ter dito, à época, “não é sobre pitangas, moço”) , desbravei casas em
construção, baguncei os materiais da construção dessas casas subindo neles,
fugi de marimbondos raivosos (depois de ouvir “corre, Liz”, e de descobrir que
ela tinha destruído com fogo uma casa enorme desses bichos vingativos), fugi do homem do supermercado
(relato criminoso que já tive a chance de confessar), soltei fogos no São João,
pulei a fogueira de São João, aprendi a ver as horas no relógio de ponteiros,
esperei pelos presentes de Natal, pisei num cacto, fui ao cinema pela primeira
vez e por dezenas de outras vezes.
Foi minha avó que me levou para as aulas de natação, de balé
e de jazz. Eu não sou uma pessoa muito corajosa para ter feito parte de tantas
aventuras de alta periculosidade, e tem poucas coisas que combinem menos comigo
do que aulas de balé clássico, mas tudo isso fez da minha infância algo
sensacional.
A minha avó fez da minha vida algo sensacional, e ela está
fazendo 80 anos. Acabei tendo que ficar um pouco no hospital, no cantinho da
disciplina, ela foi me mimar. Ela, com 80, foi mimar a mim, com 22. Pensei que
aquilo não fazia sentido, mas depois entendi que a lógica das circunstâncias
não estava nas idades, mas sim no fato de que ela é poderosíssima.
A minha avó está fazendo 80 anos, e a criança traquina,
aventureira, vida loka, “corre, Liz”, hiperativa, pés de zé sereno, que mora
dentro dela, está só começando com a safra de travessuras. A minha criança já
colocou o tênis de corrida e já respirou fundo 10 vezes para aguentar o pique.
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