Capítulo 5 – Como identificar uma senhorinha que foi uma criança traquina – manual prático (27 de março de 2018)

 Eu sei que pode soar muito errado de alguma forma (ou de todas as formas), mas minha avó é uma senhorinha um pouco mafiosa. Ela tem mais de 80 anos (por favor, ninguém avise a ela que eu revelei esse dado, temo pela minha vida, tenham algum respeito por mim).

Hoje mesmo, fui resolver pendências com minha avó e quis ajudá-la a atravessar a rua. Como de costume, ela saiu em disparada e me deixou na calçada falando para o vento sobre a importância de ter zelo ao atravessar a rua e sobre como é importante não correr.

- Vó, a gente tem que atravessar devagar, tá vindo carro

- Pois, deixe atropelarem uma velhinha pra você ver quanta gente não junta – disse ela concluindo a travessia muito a minha frente e me deixando, na faixa de pedestres, um tanto chocada.

Minha avó sempre andou mais rápido que eu,  sempre foi uma aluna melhor na academia que eu, inclusive, fez e faz muito mais exercícios físicos que eu (pessoa com a coordenação motora de uma samambaia manca- sou eu mesma -). Nesse momento, por exemplo, estou com o pé levemente machucado por conta de um sapato ingrato, resultado: parece que a academia não vai me ver tão cedo. Minha vó rompeu um tendão do braço (o que é, arrisco dizer, um pouco pior do que calo de sapatilha), resultado: no dia seguinte foi, pleníssima, malhar só perna na musculação. Ela é uma espécie de senhora Chuck Norris.

Eu tento avisar que ela tem que ter cuidado comigo, uma jovem senhora de 23 anos, que gosta de assistir Faustão, de tomar chá, café com biscoitinho e que reclama resmungando se alguém tem o disparate de sentar no lugar que me pertence na mesa de jantar, porque nenhum outro lugar serve e eu já estou acostumada com o meu, e por isso, eu não consigo comer em paz se alguém estiver usurpando meu lugar. Como eu disse, uma senhora lula molusco de 23 anos.

Já minha avó gosta de caminhar (caminhar, caminhar e caminhar) no shopping, gosta de escolher roupas pra mim só para que eu possa dizer que preferiria uma peça mais monocolor ou mais discreta (eu sou uma senhorinha recatada). Gosta de passar direto na fila do cinema e de perguntar ao caixa “a velhinha tem preferência?”, mal sabendo o pobre caixa que ela, sempre de salto, aguenta muito mais fila que eu, com meu tênis.

Agora, infelizmente, eu preciso fazer uma denúncia. Tenho sofrido ações de bullying por parte dessa senhora (a senhora cronológica, que é minha avó). Ela tem usado minha alma de gente molenga e sentimental contra mim.

- Liz, vou te dar um cacto novo

- Não, não, vó, já tá bom, já tenho dois

- Liz, se você aceitar vai me fazer feliz

- Mas você já me deu dois, vó...

- Liz, se você não aceitar eu vou ficar doente

*

- Liz, vamos fazer uma tarde de drinks

- Mas eu não tô bebendo, vó

- Aff

*

Infelizmente, isso não é nenhuma novidade. Minha avó já me tirou de uma crise de soluço, há uns bons 15 anos atrás, me dizendo que estava muito triste comigo. Eu, criança tola e amedrontada, fiquei perguntando o porquê, enquanto ela só repetia que não tinha gostado do que eu tinha feito, só que eu não conseguia lembrar de nenhuma ação horrível da minha parte. Depois de muitos, “o que eu fiz, vó?”, “eu não tô lembrada”, “vó , o que foi que eu fiz de erado?” , ela me respondeu rindo “ta vendo como susto faz parar soluço, seu soluço passou”.

Se eu uso o mesmo tipo de didática com crianças hoje em dia? A resposta é com certeza.

Pois bem, meus caros, já estão todos avisados, muito cuidado com uma senhora de 1,5 m , de salto alto, andando à lá velozes e furiosos por aí. Não é uma senhorinha comum.

 

 

Capítulo 6 –  Dia do aniversário de 80 anos da minha avó (eu não sabia ainda, mas nesse dia ela ficaria 100% chapada por ter errado remédios) – (19 de novembro de 2016)

 

Hoje minha avó faz 80 anos, ela não é uma senhorinha pacata e comum, meus caros (os relatos aventureiros feitos nesta rede social já anunciaram que não se trata *mesmo* de uma senhorinha pacata e comum).

Alguém escreveu no verso de uma foto antiga, dada de presente para essa senhorinha aventureira, que ela conservava sua criança interior como ninguém. Uma legenda muito certa.

Eu espero que seja uma característica familiar, para que eu possa conservar a minha criança também. Isso não tem nada a ver com deixar de assumir responsabilidades. Não. Criança é coisa séria e esperta, só que é uma coisa séria e esperta muito mais colorida.

Minha avó tem dentro de si uma criança muito traquina (a minha criança tem um pouco de medo disso).

Foi com ela que eu aprendi a subir em uma árvore (não a descer, o que me rendeu um inconveniente episódio numa mangueira - o resgate ocorreu bem), que eu surrupiei pitangas de um vizinho (depois o moço que cuidava do jardim foi até a minha casa com um bocado de pitangas para a gente, eu queria ter dito, à época, “não é sobre pitangas, moço”) , desbravei casas em construção, baguncei os materiais da construção dessas casas subindo neles, fugi de marimbondos raivosos (depois de ouvir “corre, Liz”, e de descobrir que ela tinha destruído com fogo uma casa enorme desses bichos  vingativos), fugi do homem do supermercado (relato criminoso que já tive a chance de confessar), soltei fogos no São João, pulei a fogueira de São João, aprendi a ver as horas no relógio de ponteiros, esperei pelos presentes de Natal, pisei num cacto, fui ao cinema pela primeira vez e por dezenas de outras vezes.

Foi minha avó que me levou para as aulas de natação, de balé e de jazz. Eu não sou uma pessoa muito corajosa para ter feito parte de tantas aventuras de alta periculosidade, e tem poucas coisas que combinem menos comigo do que aulas de balé clássico, mas tudo isso fez da minha infância algo sensacional.

A minha avó fez da minha vida algo sensacional, e ela está fazendo 80 anos. Acabei tendo que ficar um pouco no hospital, no cantinho da disciplina, ela foi me mimar. Ela, com 80, foi mimar a mim, com 22. Pensei que aquilo não fazia sentido, mas depois entendi que a lógica das circunstâncias não estava nas idades, mas sim no fato de que ela é poderosíssima.

A minha avó está fazendo 80 anos, e a criança traquina, aventureira, vida loka, “corre, Liz”, hiperativa, pés de zé sereno, que mora dentro dela, está só começando com a safra de travessuras. A minha criança já colocou o tênis de corrida e já respirou fundo 10 vezes para aguentar o pique.




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