Capítulo 4 – Uma deusa, uma mafiosa, uma feiticeira (08 de outubro de 2016)


Minha avó é uma das pessoas mais engraçadas e desinibidas que eu conheço.

Costumo lembrar de uma briga em que me envolvi na escola quando tinha entre 7 e 8 anos (não lembro o motivo, mas lembro que eu estava certa).

 Enquanto minha mãe falava de serenidade, de manter a educação, de não perder a razão, minha avó dizia, de uma forma, digamos, pouco convencional: “não mexa com ninguém, não bata em ninguém, mas não deixe ninguém lhe bater, se lhe baterem, bata de volta”.

Mas ela não é impiedosa, nunca foi. Aliás, quando era criança, minha avó não gostava de ver que algumas casas tinham cinco garrafas de leite na porta e outras não tinham nenhuma.

Tratava ela mesma de distribuir, passando nas portas e remanejando as garrafas. Essa introdução é importante para mostrar o ímpeto dessa, hoje, senhora em ajeitar as coisas. Uma espécie de justiça divina diy, com tutorial no pinterest.

Eu não tenho o mesmo ímpeto para enfrentar a autoridade das circunstâncias. Já contam uns seis anos, por exemplo, desde que um cara fantasiado do boneco azul do cotonete da johnsons estava no Bompreço, distribuindo brindes para quem comprasse dois produtos da marca.

Minha avó comprou os dois produtos, ganhou dois brindes,  então ela perguntou se eu também queria, falei que não. Como de costume, mudei de ideia minutos depois, e descobri que queria, sim, um prendedor de porta e um portacotonete.

Pegamos o produto e fomos até o boneco azul do cotonete, que estava atendendo várias pessoas ao mesmo tempo, explicando as inúmeras utilidades de um prendedor de porta. Acontece que ele nos deu apenas um brinde. Impulsionada pelo sentimento de justiça, minha vó o lembrou que seriam dois brindes, como ele tinha feito antes.

O boneco azul explicou que tinham muitas pessoas naquele momento e que só daria um. Eu já estava prestes a soltar um passivo “tudo bem” quando minha avó tomou os brindes da mão do boneco azul e saiu em disparada pelo corredor do supermercado, gritando “Liz, corre!”.

Nos primeiros segundos, não corri, fiquei olhando para a mão vazia do boneco azul. Meu coração amador parou de bater por um segundo completo. Era meu primeiro contato com o mundo do crime (todos os outros contatos passaram pela minha avó e por “Liz, corre!”). Depois, com medo concreto de ser presa por um portacotonete, saí correndo- e meio trêmula - pelo setor de higiene pessoal.

(Anos depois, eu riria disso, debochando da ideia de ser presa por um portacotonete. Mais alguns anos depois, soube que pessoas são presas por barras de chocolate. Nada é tão absurdo quanto parece)

Minha vó chegou ao caixa primeiro, e estava rindo da própria façanha. O boneco azul veio caminhando, na minha percepção, ele estava nos procurando, não mantive contato visual direto, mas minha avó manteve, e mandou um beijo seguido de um tchauzinho para o boneco azul.

Percebi, naquele momento, com aquele ato debochado, de quem ri na cara do perigo, que não herdei os genes da ousadia e da coragem, fiquei mesmo só com o gene do trocadilho com cupcake.

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